Scania X Fusquinha

Posted by: Blog da Segurança Pública on Monday, January 5th, 2009

Por falar em trânsito, lembrei-me de uma história de 2003, quando eu servia no 1º BPM. 

Certa vez, na av. W-3 sul, apliquei um auto de infração de trânsito a uma senhora que dirigia sem atenção, trafegando lentamente na faixa da esquerda, distraída, atrapalhando o tráfego, sem perceber os sinais luminosos dados pacientemente com o farol (4 vezes) e o rotolight da viatura.

Pensava eu ser uma ocorrência aparentemente normal do serviço.  Esse foi o meu primeiro triste engano.

Uns dias depois do fato, meu comandante me chama dizendo que o comandante-geral da PM pedia para que eu tirasse a multa, pois se tratava de uma amiga sua. A multa já tinha seguido, portanto não estava mais ao meu alcance cancelá-la. Obviamente, abusado firme em meus propósitos que sou, mesmo se ainda estivesse na minha esfera de atribuições, não teria cancelado a multa, pois foi aplicada dentro da legalidade e eu já sabia que não ganharia nada, a não ser desmoralização, se tirasse aquele auto de infração. Além do que, estaria sendo conivente com o crime de prevaricação que o comandante tentava perpetrar.

Eis que, para minha surpresa, na semana seguinte, chegou um memorando acusatório diretamente do gabinete do comandante-geral, para que eu respondesse o motivo da autuação de trânsito e explicasse o porque eu, tenente, estava dirigindo a viatura, uma van, modelo MB Sprinter.

Sentindo cheiro de punição no ar, fiz uma resposta bem embasada do ponto de vista jurídico e fático: sobre o fato de estar dirigindo, expliquei que era porque não havia outro motorista com CNH categoria D para dirigir a van e levar o policiamento que estava atrasado. O soldado que estava escalado como motorista havia comprado o livro de um oficial e ganhou uma dispensa naquele dia. Quem se ferrava com a corrupção alheia era eu mas, por sorte, eu estava amparado, pois havia levado o problema ao subcomandante e ele me disse a clássica frase: -Se vira, tenente. Como eu era o oficial-de-dia, levei o policiamento pessoalmente, dirigindo a viatura, devidamente autorizado. Na PMDF, oficial não pode dirigir viatura. Não me pergunte o porque. Apenas aceite isso como um incontestável e inexplicável dogma sagrado da PMDF. Oficial não dirige viatura. Ponto.

Sobre a multa em si, aleguei que o fato realmente ocorreu conforme descrito no auto e que ele foi preenchido obedecendo os requisitos legais. Além do mais, uns 12 policiais estavam na viatura e presenciaram o fato. Arrolei todos como testemunhas, para o caso do comandante-geral nao acreditar na minha versão.

Além disso, inclui aquelas baboseiras todas que se colocam em defesas: cópias dos elogios em folha, solicitação de consideração das atenuantes e de todas as circunstâncias a mim favoráveis etc. Em resumo, me humilhei bastante no documento, praticamente implorado para não ser punido, pois sabia que com aquele coronel que comandava a PM a legalidade pouco valia. Ademais, como assuntos disciplinares de oficiais correm em sigilo, não fiquei preocupado com a repercussão daquele documento e encaminhei as razões de defesa no prazo previsto.

Passou-se quase um mês e nada mais se falou a respeito, o que já me fazia acreditar que o memorando acusatório havia sido arquivado, como realmente deveria ser. 

Uhu! Vitória da justiça e de quem trabalha dentro da legalidade, pensei eu. Esse foi meu segundo engano.

Um dia, me liga um amigo tenente do Batalhão de Trânsito, dizendo que havia chegado lá uma coisa que ele nunca tinha visto na unidade. O comandante-geral encaminhou cópia da minha multa para o BPTran, solicitando um parecer técnico para verificar se ela havia sido emitida dentro da legalidade e sem abuso de autoridade, visando embasar uma tentativa de recurso junto ao DETRAN e, por consequência, punir o guarda aqui se houvesse algum problema com o auto de infração. 

Mesmo sabendo que o auto não tinha vícios, fiquei assustado, pois o animus entrosobandi do coronel era bem maior do que eu imaginara. Os sacanas do quartel já faziam as previsões macabras: -Meu filho, prepara a vaselina.

Dias depois, o inédito laudo do BPTran dava como válida a multa por mim emitida. Eis que o mané aqui pensa, mais uma vez, que, finalmente, o assunto tinha morrido. Engano número 3.

Cerca de um mês depois, o comandante da unidade manda me chamar, dizendo que havia um documento do comando geral para eu responder. Desta vez confesso que não imaginava o que era, pois pra mim o assunto da multa era página virada.

PM que trabalha na rua sabe que, cada vez que é chamado pelo comandante, passa um filme na cabeça, tentando se lembrar de alguma besteira que fez ou de algum fato que foi correto, mas poderia ser interpretado por alguém como errado. Denúncias infundadas são muito comuns contra policiais. Rebobinei o filme umas três vezes, mas não me lembrei de nada que pudesse motivar um documento do comando geral para eu responder.

Quando fui ver o que era, lá estava ela, aquela maldita multa, me perseguindo novamente.

Só que agora, em vez de medo, tomou conta de mim a revolta. O comandante-geral havia pegado a minha defesa no memorando acusatório e tinha dado à amiga dele para contestar. Sim, acredite! O processo, que deveria ser sigiloso, de investigação da minha suposta infração funcional, havia ido parar na mão da amiga do comandante geral, que, entre outros argumentos pífios, disse que eu não poderia dirigir uma viatura, porque o Estado investiu muito na minha formação e oficiais tinham mais o que fazer além de dirigir viaturas e multar pobres senhoras pagadoras de seus impostos. Pior: teve acesso, leu e ainda contestou toda a minha lenga-lenga de auto-promoção e auto-piedade para que eu não fosse punido. 

Além disso, a ordem do comandante-geral era para que eu treplicasse a contestação dela. Takeopariu! Vai ser burro e incompetente assim lá no comando-geral! Procedimento administrativo com réplica e tréplica? Autos sigilosos com vistas a alguém de fora da PM? Meus assentamentos funcionais, com toda a história da carreira, nome, CPF, endereço, tudo na mão de quem não deveria ter acesso a esses dados?

Eu sempre fui um cara contido, mas nesse dia eu estourei. Para minha sorte, ou azar, sei lá. Eu estava na sala do meu comandante, só eu e ele, quando ele me entregou o patético documento do comandante-geral.

Gritando, eu disse que responderia “a porra do documento”, conforme determinado, mas avisei para que o comandante-geral se preparasse para uma ação de responsabilização civil por abuso de autoridade e uma criminal, por violação de sigilo funcional. Louco, eu!? Não sei se sou louco, mas naquele momento eu estava furioso, como poucas vezes fiquei na vida.

O coronel, que também era bacharel em Direito e sabia que aquilo constituía abuso, mandou que eu me acalmasse e disse que conversaria com o comandante-geral.

Cerca de uma hora depois, ele me chama novamente na sala e diz o seguinte: - Aquele memorando, pode esquecer.

Como ssim esquecer, coronel? Não tem como esquecer. O comandante tá querendo me ferrar e o senhor vem me mandar esquecer? Eu estava tão cego de raiva que não entendia o significado da coisa.

Esquece, tenente. Aquele documento nunca existiu, explicou.

Como nunca existiu, coronel? É um memorando acusatório, tá publicado, tem numeração, protocolo e tudo mais.

Tenente! interrompeu-me o coronel bradando. Esse documento N-U-N-C-A existiu, entendeu? Morreu, foi apagado, arquivado, desapareceu. Considere que você nunca respondeu a nenhum memorando. Isso não vai ser registrado em lugar nenhum.

Mas e a resposta que eu tinha que dar? Já estava digitando o documento.

Tenente, meu filho, rasga essa porra. Não quero mais ouvir falar nesse assunto. Pode se retirar - encerrou, ríspido.

Sim senhor, coronel. Com licença! A continência saiu com força, num misto de raiva e satisfação.

Vitória!!! Eu sou foda!!! - pensei eu. O cara ficou com medo e mandou desaparecer com tudo. E esse foi o engano número 4. 

Três semanas depois chegou a ordem me transferindo de unidade, para o quartel mais longe da minha casa em todo o DF. Meu comandante bem que tentou me segurar ali, mas o orgulho do comandante-geral estava ferido, pelo sapo que engoliu do mero segundo-tenente.

96 Km diários de ida e volta não eram nada diante da satisfação de ver que o comandante-geral teve que usar um atalho espúrio para tentar me punir, pois foi incompetente para fazê-lo na via legal. Cheguei até a pensar em uma medida judicial para reverter minha trensferência arbitrária, que descumpriu frontalmete o regulamento de movimentações da PMDF (sim, ele existe!), mas depois que vi a mamata que era a nova unidade, resolvi ficar por lá mesmo.

Share/Save/Bookmark

Um pouco mais sobre pardais e pinóquios

Posted by: Blog da Segurança Pública on Saturday, January 3rd, 2009

Nossa tese de que os controladores eletrônicos de velocidade, os famosos pardais, punem muito mais os condutores que não correm nas vias mas que, vez por outra, acabam se distraindo e excedem pouco a velocidade, em vez de punir aqueles corredores contumazes, foi provada hoje, com a divulgação das estatísticas de multas do Detran.

Segundo a notícia do Correio Braziliense, 90% das multas aplicadas pelos pardais foram para motoristas dirigindo, no máximo, 20% acima da velocidade da via.

Isso se dá porque os motoristas que correm decoram a localização dos pardais e freiam quando se aproximam dos equipamentos. Já os que respeitam a velocidade, não passam o tempo todo olhando para os postes, e não percebem quando a velocidade passa dos 60Km/h para 68Km/h, por exemplo, acabando por serem flagrados.

Significa dizer que o sistema de fiscalização pelos pardais é cruel e injusto, pois pune muito mais os pequenos infratores, que aqueles que verdadeiramente arriscam suas vidas e as de terceiros no trânsito.

O especialista em trânsito constata o óbvio: “Para o professor universitário e mestre em Engenharia de Transportes José Leles de Souza, o aumento das multas pela fiscalização eletrônica nos últimos três anos é um sinal de que o equipamento não está surtindo efeito educativo sobre o motorista.”

Já a arrecadação de dinheiro com as multas chegou aos 88 milhões de reais em 2008, dos quais somente 13 milhões foram para campanhas educativas ou transferidos para o Denatran.

E o diretor-geral do Detran ainda vem dizer que não existe “voracidade em arrecadar”.

Ah tá!

Share/Save/Bookmark

Concurso da Polícia Civil do Distrito Federal - PCDF

Posted by: Blog da Segurança Pública on Tuesday, December 30th, 2008

Finalmente saiu o edital do concurso público para ingresso como agente da Polícia Civil do Distrito Federal - PCDF, a mais bem paga do país. O concurso, aplicado pela Funiversa, exige nivel superior completo em qualquer área, além de outros requisitos constantes do edital. A remuneração de um policial civil no DF após a formação é de mais de R$ 7.300,00.

Informações:

Cargo: agente de polícia;

Vagas: 320, sendo 129 para provimento imediato e 191 para cadastro de reserva;

Inscrições: 05 de janeiro a 12 de fevereiro de 2009;

Taxa de inscrição: R$ 132,00

Idades limite: Mínima: 18 anos de idade, na data da posse;

Escolaridade: Ensino Superior completo - qualquer curso;

Vagas para deficientes: sim, 20% do total;

Data da prova objetiva: provavelmente, 15 de março de 2008;

Data da prova discursiva: conforme edital, na mesma data da prova objetiva;

Data das provas de aptidão física: a ser divulgada em edital específico;

Prova de aptidão física (descrição detalhada no edital):

  • Barra fixa: homens - 3 repetições; mulheres - 10 segundos;
  • Meio sugado: homens - 20 repetições (em 1 minuto); mulheres - 15 repetições (em 1 minuto);
  • Impulsão horizontal: homens - 1,70m (partindo da posição parado); mulheres - 1,30m (partindo da posição parado);
  • Shuttle run (corrida de ida e volta): homens - tempo limite - 13 segundos; mulheres - tempo limite: 15 segundos
  • Corrida de 12 minutos: homens - 2400m; mulheres - 2000m.

Remuneração: durante o curso de formação: não divulgado; após formado: R$ 7.317,18.

Inscrições e informações aqui.

Edital disponível aqui.

Outros requisitos: possuir CNH, categoria B ou superior;

Validade do concurso: 1 ano, prorrogável por igual período;

Share/Save/Bookmark

Trânsito, polícia e lei de Murphy

Posted by: Blog da Segurança Pública on Tuesday, December 30th, 2008

Cometer infração de trânsito não é nenhuma novidade. TODA pessoa que dirige veículo comete infrações. São tantas as possibilidades descritas no Código de Trânsito que é impossível não cometê-las de vez em quando.

Por esse motivo, não acho tão sério assim quando policiais as cometem, com algumas exceções, claro. Em Brasília, por exemplo, é comum ver viaturas do Batalhão de Trânsito da PM estacionadas em local proibido, sobre a calçada ou na grama, quando estão em pontos de demonstração ou mesmo durante as operações repressivas, multando, justamente, aqueles veículos estacionados em local proibido. A instituição fica desmoralizada mas, ao que parece, nossos comandantes candangos já se acostumaram com isso. (modo chutando cachorro morto on) Na minha opinião, muito menos grave uma viatura estacionada em lugar proibido que um oficial que usa PMs na construção de sua casa(modo chutando cachorro morto off).

Outra infração de trânsito bem comum é policial não usar cinto de segurança. Alegam uma idiota questão tática, uma tal idéia fantasiosa de que, se estiverem usando o cinto, estarão mais sujeitos a serem baleados no momento de desembarcar para uma abordagem. Desculpa esfarrapada: é preguiça de usar o cinto mesmo. Até porque a literatura e a prática não nos trazem NENHUM caso de policial morto ou baleado porque demorou a desembarcar da viatura tentando tirar o cinto de segurança. Já policiais que morreram em acidentes de viatura porque estavam sem cinto, eu conheci mais de meia dúzia. Para falar a verdade, em locais como DF, morre mais policial em acidente de viatura que baleado em serviço. Se é ruim por um lado é ruim também pelo outro. Ideal mesmo que não morresse nenhum policial em nenhuma das duas situações. Esperarei deitado na rede os cursos de direção defensiva e de técnicas de abordagem para todos os policiais de rua.

Já que todo mundo comete infração de trânsito, a regra geral é que os policiais, quando flagrados nessas situações por colegas de trabalho, simplesmente dêem deem a boa e velha carteirada. Na maioria dos casos funciona: uma vez que a infração de trânsito é um negócio leve a que todo mundo está sujeito, normalmente os colegas relevam e liberam o policial infrator. É um corporativismo que existe e é bem forte, não há como negar, quer o leitor seja contra ou a favor.

Agora, o que é difícil de engolir, é o policial cometer a infração de trânsito, ser abordado por colegas de farda e ainda tentar fugir. Tudo isso, em frente às câmeras. Segundo a lei de Murphy, só podia dar merda. Na modalidade da lei de Murphy agravada pela condição de policial militar do agente, magistralmente descrita pelo Alexandre, dará merda, mas da pior forma possível e imaginável. É o famoso azar militar, mostrado hoje nas imagens do Bom Dia São Paulo, surrupiadas do G1.

Simplificando para a linguagem presidencial: - sifu!

 

Share/Save/Bookmark

14 anos depois, a indenização

Posted by: Blog da Segurança Pública on Thursday, December 25th, 2008
STJ aumenta indenização a pais de jovens assassinados sob a custódia da PM
A Segunda Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) aumentou para 500 salários mínimos o valor da indenização concedida a título de dano moral aos pais de dois jovens de 18 anos que, sob custódia da Polícia Militar de Minas Gerais, foram brutalmente assassinados. Em primeiro grau, havia sido fixado o valor de 50 salários mínimos. Esse valor, em apelação dos autores, foi majorado para R$ 40 mil pelo Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais.

Os rapazes foram presos pelos agentes públicos sem justificativa plausível, algemados e agredidos depois do furto de uma bicicleta da casa de um policial aposentado. Não havia flagrante delito ou mandado judicial exarado por autoridade competente.

A prisão não foi comunicada à autoridade judicial ou à família. Em vez de garantir o retorno dos detidos aos seus lares, a Polícia sustentou que simplesmente os liberou e não tinha idéia de como os corpos dos dois amigos foram encontrados com tiros na cabeça e marcas de bota nas costas em um matagal do interior de Minas Gerais às margens da BR-120, no município de São Geraldo. Os fatos se deram em maio de 1994.

A Justiça de Minas Gerais considerou a existência de diversas contradições nos depoimentos prestados pelos policiais que detiveram os rapazes. O juiz constatou que, a despeito do laudo de corpo de delito que acusou ferimentos nos pulsos das duas vítimas, os agentes negaram o uso de algemas. Dessa maneira, ficou caracterizado o nexo causal entre a conduta dos agentes públicos e o resultado danoso, o que leva à responsabilização objetiva do Estado.

O valor da indenização por danos morais fixado pelas instâncias ordinárias está sujeito ao excepcional controle no Superior Tribunal de Justiça, quando se revelar exorbitante ou irrisório.

No caso, o relator, ministro Herman Benjamin, considerou que o valor fixado na instância ordinária deveria ser aumentado porque estava “caracterizada a especial gravidade dos fatos e de suas trágicas conseqüências, decorrência da atuação violenta e criminosa de agentes do Estado, pagos pelo contribuinte para defender a sociedade e não para aterrorizá-la”. O Estado deverá pagar 250 salários mínimos para os pais de cada um dos dois jovens assassinados.

fonte: STJ
Processo: RESP nº 617131

Share/Save/Bookmark

Feliz Natal aos leitores do BSP

Posted by: Blog da Segurança Pública on Wednesday, December 24th, 2008

 

Share/Save/Bookmark

Histórias de heróis da PMERJ

Posted by: Blog da Segurança Pública on Monday, December 22nd, 2008

Semana passada foi a Veja São Paulo quem homenageou os policiais mortos em serviço. Desta vez é o encarte Veja Rio que nos brinda com matéria reconhecendo os importantes serviços prestados pelos policiais militares. Rara matéria fazendo justiça a herós tombados na luta contra o crime, que vale a pena copiar para nossos leitores. 

24 de Dezembro de 2008

Segurança

Mortos em combate

Histórias de policiais militares que perderam a vida em batalhas contra o crime e de como suas famílias lutam para seguir em frente

Letícia Pimenta

Ao tentar impedir o seqüestro-relâmpago de um empresário na Linha Vermelha, no último dia 2, o cabo Lindomar da Silva Simão, 38 anos, foi baleado nas costas e morreu. Um dos 1 500 policiais do Batalhão de Choque, Simão era pai de um menino de 8 anos, que, traumatizado, cai em prantos toda vez que avista um carro da PM. O cabo foi o 22º policial militar morto em serviço neste ano no Rio, em um total de 105 PMs assassinados desde janeiro. É um número assustador. Em São Paulo, 49 PMs foram mortos entre janeiro e setembro na capital, sendo nove a trabalho. “A família de um policial não tem sossego”, afirma Sandra Cristina Bezerra Pereira, viúva do soldado Emerson Severiano Pereira, assassinado em outubro com dois tiros de fuzil na cabeça. “A qualquer momento podemos receber a notícia da morte.” Essas histórias mostram outra faceta da vida dos PMs, muitas vezes vistos com desconfiança pela população. Eles são vítimas de um perverso sistema que assusta heróis, bandidos e inocentes. “Há uma legião de pessoas vivendo em áreas conflagradas e abandonadas pelo poder público”, diz o secretário estadual de Segurança, José Mariano Beltrame. “Para elas não existe estado ou lei. Resolvem seus problemas por conta própria.” Nesses casos, lembra Beltrame, o PM é tão inimigo quanto uma facção criminosa.

Embora recebam pensões vitalícias correspondentes ao salário do policial na ativa, as famílias vêem o orçamento ser reduzido, já que boa parte do efetivo – 40 000 homens, sendo 22 200 na capital – faz bicos para complementar a renda. O piso de um PM em início de carreira é de 1 059 reais. Os parentes dos mortos em serviço têm direito a uma indenização de 100 000 reais, independentemente da patente. Policiais feridos são beneficiados com valores que variam de acordo com a lesão. Segundo o coronel Marcos Alves, da diretoria de assistência social da PM, só neste ano o governo pagou 1,75 milhão de reais em indenizações – 89 por morte em serviço e 67 para policiais feridos. Desde 2005 funciona o Grupo de Atendimento aos Familiares do Policial Militar Falecido (GAFPMF), que já atendeu 300 famílias, oferecendo orientação sobre benefícios legais e apoio psicológico. “Pela violência com que ocorre, a morte de um PM é um trauma irreparável”, afirma a tenente e psicóloga Damiana de Souza. A seguir, seis histórias de policiais que tombaram na luta contra o crime.

 ”Por que não eu?”

Fernando Lemos
Maria das Graças, mãe do soldado Alamir Gomes Júnior: “Não queria ver meu filho arriscando a vida”

Quando ouviu a pior notícia que uma mãe pode receber, a esteticista Maria das Graças Gomes, 53 anos, teve um princípio de infarto. Preocupada com a nora, grávida de quatro meses, pediu ao médico para não ficar no hospital. O soldado Alamir Gomes Júnior, de 29 anos, foi morto com cinco tiros na madrugada do dia 3 de outubro, na Lapa. “Ele tinha uma vida inteira pela frente”, diz. “Às vezes me pergunto: por que não eu?” Júnior e um colega do 13º BPM (Praça Tiradentes) patrulhavam a Rua do Lavradio em duas motocicletas quando suspeitaram de um grupo de homens que, ao ser abordados, reagiram a tiros. Ele recebeu cinco disparos, um deles no pescoço. Três criminosos foram presos. Desde então, seu filho mais velho, de 10 anos, está sob acompanhamento psicológico. Maria das Graças confessa que teve vontade de invadir a delegacia e matar os assassinos do filho. “A polícia não tem o mesmo poder de fogo dos bandidos”, lamenta. “Nossos cabos e soldados estão nas mãos deles.” Gomes Júnior entrou para a corporação aos 21 anos, escondido da mãe. Na época, cursava o 8º período de direito, dava aulas de inglês e fazia todos os concursos públicos que surgiam. A Polícia Militar era um trampolim para realizar seu objetivo, ser delegado da Polícia Federal. Não deu tempo. “Eu desejava algo melhor para o meu filho, não queria vê-lo arriscando a vida.”

 Os estudos em primeiro lugar

Fernando Lemos
Denise, viúva do sargento Oliveira, e os filhos: o caçula, Luiz Fernando, diz que quer morrer para rever o pai

A maior preocupação do sargento Jailson Correa de Oliveira era dar uma boa educação aos três filhos: Felipe, 17 anos, Renato, 15, e Luiz Fernando, 6. Pai exigente, não admitia notas baixas. Oliveira tinha três empregos e, segundo a viúva, Denise Orestes de Oliveira, era um turista na própria casa. “Chegava tão cansado que, antes de eu servir o jantar, já estava dormindo”, afirma. O sargento de 45 anos, lotado no 15º BPM (Duque de Caxias), trabalhava como segurança de uma empresa de ônibus e de um bar, atividades que, juntas, garantiam à família uma renda mensal de cerca de 3 000 reais. No dia 18 de fevereiro, por volta das 7 horas, ele foi executado com dois tiros na cabeça em um bar ao lado do Hospital Municipal de Duque de Caxias, onde dava plantão. De costas para a rua, ele lanchava quando dois homens se aproximaram e dispararam. De acordo com a viúva, o policial do plantão noturno havia tentado apartar uma briga entre um médico e um paciente no hospital. Um dos envolvidos, então, o teria jurado de morte. Na manhã seguinte, voltou para se vingar. “Eu sempre falava para ele abandonar a polícia”, lembra Denise. Antes de sair de casa no dia em que foi morto, o sargento Oliveira pediu à mulher que o fotografasse ao lado do carro novo com o filho caçula. Meia hora depois, foi assassinado. O menino é quem mais sofre com a perda. “Ele vive dizendo que quer morrer para encontrar o pai”, conta a viúva.

 ”Eu sonhei com a morte do meu marido”

Daryan Dornelles
Cláudia, viúva do cabo Pereira Júnior, assassinado na Fonte da Saudade:“Sinto um vazio enorme”

Às 5h30 do dia 17 de julho, os moradores da Rua Fonte da Saudade, na Lagoa, foram acordados por um tiroteio. Dois policiais militares, o cabo Francisco Alves Pereira Júnior, 34 anos, e o sargento Joel Gomes de Almeida, 40, dormiam em um carro da corporação quando foram alvejados. Não tiveram tempo de reagir. Cada um levou cerca de dez tiros. Na véspera da morte de Pereira Júnior, a viúva Maria Cláudia Sales Pereira pressentiu que o marido não voltaria vivo para casa. Há catorze anos na Polícia Militar, o cabo ligou para a mulher por volta da meia-noite e fez um pedido: “Cuide das crianças e não deixe ninguém tomar a casa de vocês”. A família vive com cerca de 1 200 reais por mês, 800 de pensão do cabo e 400 do salário da viúva, que trabalha em uma creche. Adepta do espiritismo, Cláudia afirma que havia sonhado com a morte do marido, exatamente da forma como aconteceu. Tentou alertá-lo, mas ele não levou a sério. Desesperada com a perda, ela desmaiou no enterro. Nos meses seguintes, teve depressão. “Até hoje estou em choque”, diz. “Sinto um vazio enorme. Ele era um marido e um pai maravilhoso.” Os dois se conheciam desde a adolescência e tiveram três filhos: Stefany, 14 anos, Johnatan, 12, e Jonny, 8. Revoltada com o assassinato, a filha mais velha lamenta que as investigações até agora não tenham dado em nada. “Tinha gente na rua que viu tudo, mas tem medo de falar”, diz ela.

 Sem medo, o filho quer seguir a carreira paterna

Selmy Yassuda
Rodrigo e a mãe, Rosemay: ele recebeu o telefonema avisando da morte do pai, o sargento Araújo

Quando a saudade vem, Rosemay Lessa Araújo, companheira do sargento Mauro dos Reis Araújo durante 26 anos, encontra na paixão do marido pela PM o consolo a sua perda. “Ele dizia que ia morrer trabalhando”, conta a dona-de-casa. No dia 10 de março, o sargento, de 48 anos, estava em uma viatura no entroncamento entre as linhas Vermelha e Amarela quando viu dois homens tentando roubar um carro. Trocou tiros com os assaltantes e foi atingido no peito. O casal tinha quatro filhos: Amanda, 26 anos, Leonardo, 23, Rodrigo, 16, e Natália, 10. Os dois mais velhos já são casados e os menores vivem com a mãe em Realengo, mantidos pela pensão de 2 000 reais, equivalente ao salário do sargento. O mais abalado com a morte do pai foi Rodrigo, o primeiro a receber a notícia. Um colega de Araújo, também lotado no 22º BPM (Maré), ligou para a casa da família. O adolescente atendeu e soube da morte do pai. “Fiquei muito mal, nós éramos muito apegados”, diz. “Ainda estou tentando me acostumar à falta que ele faz.” A perda não o levou a desistir do sonho de exercer a mesma profissão do pai. Medo, nem pensar. Quando terminar o ensino médio, Rodrigo pretende prestar prova para a Polícia Militar. Rosemay é contra e tenta convencer o filho a desistir. Até agora em vão. “Ele ficou com mais vontade ainda de ser PM”, lamenta.

 Planos de maternidade interrompidos

Fernando Lemos
Gisleide, na cozinha da casa construída pelo marido, o soldado Oliveira: “A vida dele era a polícia”

Quando conheceu o soldado Adriano Vicente de Oliveira, a estudante Gisleide de Paula Oliveira tinha 12 anos. Aos 14, começaram a namorar. Em 2003, com 22, ela subiu ao altar de véu e grinalda. Planejavam ter o primeiro filho neste ano. “Eu já queria há mais tempo, mas ele sempre foi muito metódico e preferiu terminar a construção da casa”, explica. Ainda há coisas por fazer no imóvel, em Realengo, mas Gisleide já não vê motivos para isso. “Perdeu a graça”, diz a viúva, com lágrimas nos olhos. Oliveira, que tinha 31 anos, foi baleado na cabeça no dia 14 de janeiro, em troca de tiros com traficantes da favela Vila Cruzeiro, uma das mais perigosas do Rio, onde o jornalista Tim Lopes foi brutalmente assassinado, em junho de 2002. Ex-vendedor de malas, o soldado entrou para a Polícia Militar escondido da família, para melhorar de vida. A noiva era a única que sabia e rezava para ele não passar na prova. Depois, torceu pela reprovação no teste físico. Quando entrou, Oliveira tomou gosto pelo trabalho. “A vida dele era a polícia”, conta Gisleide. Trabalhando no 16º BPM (Olaria), o PM ligava para a mulher várias vezes ao dia, na tentativa de tranqüilizá-la. Para preencher o vazio deixado pela morte do marido, Gisleide, que recebe 1 700 reais de pensão, matriculou-se numa faculdade de marketing e numa auto-escola. Sempre que pode, sai com as amigas. À noite, a dor aperta. “Ainda não consigo pensar no futuro. Só peço a Deus para um dia encontrar alguém tão maravilhoso como ele. Vai ser difícil.”

 ”Quando meu pai vem me ver?”

Fernando Lemos
Sabrina, filha do cabo Pereira, com a mãe, Sandra: “Agora entendi por quetodos estão chorando”

Foram cinco anos de um casamento repleto de idas e vindas. Numa situação rara entre ex-casais, o cabo Emerson Severiano Pereira, 34 anos, e sua ex-mulher, Sandra Cristina Bezerra Pereira, 28, mantiveram uma forte amizade até o fim trágico do policial militar, no dia 11 de outubro. Os dois estavam sempre juntos, a ponto de parentes e amigos perguntarem se haviam reatado a relação. Ainda às voltas com a papelada para dar entrada na pensão, Sandra calcula que vá receber cerca de 2 000 reais por mês. Lotado no Módulo Operacional de Vias Especiais (Move) do Batalhão de Choque, o cabo dirigia um carro da polícia quando recebeu dois tiros de fuzil na cabeça, numa emboscada feita por traficantes em Benfica. Abalada, Sandra passou uma semana escondendo a notícia da filha, Sabrina, 4 anos. “Ela era completamente apaixonada pelo pai”, diz. “Eu não sabia como falar.” Sandra decidiu comprar a bicicleta que Pereira havia prometido dar à menina no Natal e chamou-a para conversar. Contou que o pai tinha ido para o céu e virado uma estrelinha. Aos prantos, Sabrina deu um soco na bicicleta e retrucou: “Agora entendi por que todos estão chorando”. A menina pediu à mãe para procurar uma estrela no céu. Ao avistar uma, agradeceu ao pai pelo presente. Quando sente saudade dele, Sabrina pega uma camiseta, uma bermuda e um boné do policial, cuidadosamente guardados pela mãe, e os abraça. “Quando ele vai descer da estrela para me ver?”, ela pergunta.

fonte: Veja Rio

Share/Save/Bookmark

Solução gaúcha para buracos nas estradas

Posted by: Blog da Segurança Pública on Thursday, December 18th, 2008

E o PM não vê a hora de o churrasco ficar pronto…

Share/Save/Bookmark

Perto da Zona

Posted by: Blog da Segurança Pública on Tuesday, December 16th, 2008

 

Local certo e bem sabido

“O ponto de referência situa-se próximo à Zona da Velha Iara”.
……………
Do registro de uma ocorrência policial numa delegacia de polícia da Serra gaúcha.

fonte: Espaço Vital, 09DEZ08.

 

Share/Save/Bookmark

Progredindo, ainda que lentamente

Posted by: Blog da Segurança Pública on Monday, December 15th, 2008

Comentário de um amigo da PM na semana passada, conversando comigo:

- Cara, se você entrar em alguma das unidades no Setor Policial você vai pensar que nem está na PMDF.

E eu, sem entender nada, quase dois anos fora da Gloriosa que estou:

- Ué, por que?

Ao que o amigo responde, ainda meio sem acreditar:

- Móveis novos e ar condicionado funcionando. E o mais incrível: não é doação de órgão público. Foi a PM quem comprou.

A gargalhada de ambos os lados foi inevitável.

Share/Save/Bookmark