NOSSA ANÁLISE

Posted by: Blog da Segurança Pública on sexta-feira, dezembro 29th, 2006

Não é preciso ser nenhum especialista para verificar graves equívocos nas posturas de governantes e pessoas do alto escalão da segurança nessa questão.

O emprego do Exército não é solução para isso e não é para isso que é treinado equipado e pago, muito mal, ressalte-se. Patrulhar “uma ou duas quadras” além do quartel como defende o governador eleito não chega nem a ser mero paliativo. Puro embuste para inglês (e carioca) ver.

A declaração da personal trainer de que “se o morro descer o efetivo não será suficiente para conter os bandidos” é tão desprovida de conteúdo fático quanto é emblemática em revelar o sentimento de alheamento da classe média em relação aos moradores do morro. Ser morador de morro virou sinônimo de ser bandido. E essa postura não está só no morador da zona oposta, ou seja, o asfalto. Os governos têm repetido ao longo de décadas as omissões em relação a essa parcela da população. Escolas, hospitais, transporte, lazer, saneamento e demais serviços do Estado estão disponíveis em quantidade e qualidade minimamente suficientes somente para os moradores do asfalto. De sobra, para o morro, somente mesmo a polícia, que tenta, na medida de suas limitações, fazer aquilo para o que é treinada e não raro vai além com ações sociais, levando para o morro médicos da PM e outros serviços que fogem à sua atividade fim.

Aos que falam que os sociólogos são os defensores de bandidos, do que se extrai da matéria, mais parece que estes são os amigos dos governos, pois têm cansado de apontar soluções viáveis, ou ao menos mostrar os caminhos que não se deve seguir sob pena de fracasso e conseqüente descrédito.

Com efeito, e no mesmo sentido do que apontam os sociólogos, o emprego do Exército deve ser descartado, ainda mais quando se tem uma Força Nacional de Segurança Pública, instituída justamente para casos assim. A legalidade e eficácia da Força Nacional são tópicos para outra discussão, mas o que interessa é que, em existindo a FNSP, o Exército sequer deve ser cogitado.

Na matéria anterior, do Globo, a recusa em falar sobre o assunto por parte do Comando da PM e da SSP deixa margens a especulações e opiniões sem fundamento que só levam a aumentar ainda mais a sensação de insegurança e de falta de pulso do governo nas lides com o crime organizado. A polícia brasileira, por tradição histórica, é fechada à imprensa. Nesse sentido, pecado capital a falta de uma assessoria de imprensa dos organismos de segurança do Rio, pois a mídia, abastecida de informes não oficiais acaba por alarmar ainda mais a população dando aos fatos dimensão e destaque maiores do que deveria.

Dizer que “a Polícia Federal é muito bem treinada” é mais uma daquelas frases de efeito que nada diz. É muito bem treinada em que? Investigação de crimes previdenciários, descaminho, operações táticas, policiamento em morros, desativação de explosivos? Ora, a Polícia Federal tem pouco mais de 7 mil policiais para o país todo, enquanto a PMERJ tem mais de 43 mil policiais somente para o estado do Rio de Janeiro, além dos mais de 11 mil policiais civis. O BOPE da PMERJ, inclusive, é reconhecido como a melhor tropa de combate urbano no planeta. Portanto, efetivo e qualificação policiais não são o problema, mas sim sua competente gestão e atuação complementar a outros segmentos do Estado que, por hora, estão completamente ausentes.

O uso da inteligência também tem se mostrado, quando isolado, ineficiente, pois segundo as próprias notícias, o alto escalão da segurança recebeu informes com antecedência suficiente para ações preventivas necessárias.

O controle dos morros pelas milícias, numa espécie de vigilantismo à brasileira, pois não parte das próprias vítimas da insegurança, mas sim de terceiros interessados em ganhar o terreno antes ocupado pelos traficantes, também se mostra perigoso. Agora, ao invés de dois estados, o verdadeiro Estado e o paralelo, surge um terceiro, não tão sangrento como o tráfico, mas ainda imprevisível em suas reais intenções e conseqüências, até mesmo porque, ao que parece, conseguiu fazer juntar contra si facções criminosas que até então apresentavam-se como inimigas. O resultado disso a curto e médio prazo é imprevisível, ainda mais porque sem precedentes na história brasileira.

Certo mesmo é que o novo governador está em uma sinuca de bico. E já começa a jogar com o taco empenado, pois ao mesmo tempo em que afirma que deve prestigiar suas polícias admite acionar o governo federal no primeiro dia de seu governo. Talvez se ele pagar melhor seus policiais e não tratá-los como bucha de canhão e culpados de todo o mal no RJ já esteja dando um grande passo. Os pífios 10 mil reais anunciados por Cláudio Humberto como verba para investimentos em inteligência policial para 2007 no RJ devem ser revistos e ações no campo social, como a disponibilização de equipamentos urbanos nas comunidades mais carentes devem ser a tônica na nova gestão.

Aos que acreditam no sistemático extermínio de bandidos e traficantes como solução, três lembretes: cada traficante morto implica no fortalecimento de um terceiro, que se apossa de seus domínios; A estrutura do tráfico é vertical, como nas PPMM: cada traficante morto abre uma vaga para algum bandido menor ser promovido; Não adianta espernear: não existe solução a curto prazo. PM, Exército, Marinha, Força Nacional não são onipresentes e não ocuparão permanentemente e de forma efetiva área nenhuma. Vide Bagdá (5,7 milhões de hab.), com pouco mais da metade da população da metrópole do Rio ocupada pelo sedizente melhor exército do mundo.

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